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domingo, 25 de agosto de 2013

BLOCO DE LESTE

Ontem morreu Alexander Donner. Aproveitei para fazer uma pesquisa na internet sobre ele e as suas origens. Dessa pesquisa resultou esta entrevista que apresenta o testemunho de três atletas que desenvolveram atividade profissional aqui em Portugal e nos seus países de origem.
Conhecer a vida para além do antigo muro de Berlim, antes da sua queda, é algo que me seduz  incomensuravelmente. Assim, transcrevo uma entrevista com o testemunho pessoal de três atletas que têm a experiência de vida do lado de cá e do lado lá, antes e depois da queda do Muro de Berlim. Pareceu-me muito interessante.

«Suplemento de Domingo: Ion Timofte, Alexander Donner e Svetlana Kabelevskaia recordam antigo bloco de Leste
ATLETAS ERAM MAIS FORTES MAS A SUA VIDA CONTROLADA

A COMEMORAÇÃO do décimo aniversário da queda do Muro de Berlim foi pretexto para juntar três figuras de proa do desporto em Portugal, nas suas respectivas modalidades, oriundos da Europa de Leste: o futebolista romeno Ion Timofte, o treinador ucraniano de andebol do ABC, de Braga, e ex-seleccionador nacional, Alexander Donner, e a voleibolista russa Svetlana Kabelevskaia, que representa uma das melhores equipas nacionais, a Senhora da Hora. A ideia era pô-los a falar sobre o desporto na Europa de Leste antes da queda do Muro de Berlim e da derrocada do sistema socialista e contarem-nos as suas experiências.


A conversa fluiu com naturalidade perante a qualidade dos interlocutores. Timofte exprime-se melhor na língua de Camões que a maioria dos seus colegas de profissão portugueses; Svetlana, casada com um português e à espera do deferimento para o pedido de naturalização que formulou de forma a poder representar a selecção portuguesa, idem aspas; Donner, um anti-estalinista e anti-Gorbatchov convicto, não tem a mesma fluência, mas é uma personalidade interessantíssima, de outra geração, com uma vivência muito rica, da qual nos revelou algumas facetas, que por falta de espaço não pudemos reproduzir nestas páginas. Aliás, o treinador do ABC foi uma surpresa na medida em que nos tinham alertado para o seu feitio sisudo e impenetrável e acabou por se revelar uma pessoa aberta, com um sentido de humor subtil, e um jeito particular para contar anedotas...


Entre os três, a curiosidade de terem vindo para Portugal no mesmo ano, em 1991. Uma coincidência. Apesar da sua avó materna ser russa, Timofte não conseguia comunicar com Svetlana e Donner nessa língua, dada a origem latina do romeno, pelo que o fez sempre em bom português. Pena foi que o espaço tivesse sido escasso para contar outras experiências dos nossos convidados e dar a conhecer a estrutura em que assentava o desporto no Bloco de Leste em termos do acesso da população à prática desportiva.


RECORD - Como é que funcionava, em linhas gerais, o modelo base sobre o qual assentava o desporto de alta competição no antigo Bloco de Leste e que tão bons resultados desportivos proporcionou durante anos a fio?


ION TIMOFTE - Diziam que havia um modelo amador, mas era totalmente profissional. Os clubes eram das câmaras municipais e quem mandava era o partido, que tinha representantes em cada cidade, em cada região. Os dirigentes dos clubes eram, também, nomeados pelo partido. Quem quisesse subir na hierarquia, em qualquer actividade, tinha de pertencer ao partido. Dou-lhe um exemplo: num plantel de vinte jogadores de um clube, dois ou três eram empregados da EDP, outros da Companhia das Águas e por aí fora. Eram distribuídos por empresas ou departamentos do Estado. Havia como que um entendimento: o chefe do partido nessa região ou cidade ia ter com o presidente de uma empresa e dizia-lhe que precisava que dois ou três jogadores se tornassem empregados dessa empresa e que esta lhes pagasse ao fim do mês. Realmente os jogadores iam lá receber o ordenado, mas só lá punham os pés no fim do mês. Só os prémios eram pagos pelo clube. Eles diziam que os jogadores eram amadores, que tinham os seus empregos, mas a verdade é que só jogavam à bola e eram totalmente profissionais. Havia alguns que estudavam...


ALEXANDER DONNER - E outros eram militares, até havia coronéis...


I. T. - Não sei se na Rússia era como na Roménia...


SVETLANA KABELEVSKAIA - Por exemplo, uma atleta que fosse sargento e ganhasse uma competição importante era promovida a uma patente superior...


I. T. - Na Roménia havia o Dínamo, que era o clube da polícia, e o Steaua, que era o clube do exército. Quem mandava era o ministro das Internas - o correspondente cá ao ministro da Administração Interna. Todos os jogadores que iam para o Dínamo tinham logo a patente de tenente e depois eram promovidos consoante o peso que tinham na equipa e os títulos que ganhavam. Por exemplo, se um jogador do Dínamo era mandado parar pela polícia de trânsito, apresentava um cartão que tinha e ainda o cumprimentavam e pediam desculpa pelo incómodo. (risos) Um jogador jovem que brilhasse num clube pequeno e que despertasse o interesse do Steaua, era logo contratado porque lhe prometiam livrar da tropa, que era uma vida dura.


A. D. - Na União Soviética a rivalidade era grande entre o Dínamo de Moscovo, que era o clube da polícia, e o CSKA de Moscovo, que era o clube central do exército, porque havia outros CSKA's...


GANHAR ACIMA DA MÉDIA


I. T. - [metendo a colher no futebol soviético] Por exemplo, quando jogava o CSKA de Moscovo contra o CSKA de Leninegrado era obrigatório ganhar o de Moscovo...


A. D. [acusando o toque] Na Roménia era a mesma coisa com o Steaua e o Dínamo...


I. T. - Sim, sim, por isso é que eram sempre as duas melhores equipas... Se um jogador, mesmo já credenciado, recusasse ir para o Dínamo pagava um preço alto por isso. Lembro-me de um caso de um jogador que não quis ir para o Dínamo. O pai desse jogador tinha um pequeno negócio e eles chegaram ao cúmulo de enviar a polícia económica para o prender, alegando que não tinha os papéis em ordem, para obrigar o filho a ir jogar para o Dínamo.


I. T. - Quem pagava era o partido. Os melhores jogadores ganhavam um pouco mais do que os outros, por isso eram colocados em cargos superiores no emprego para justificar os melhores ordenados que lhes pagavam.


R. - Quer dizer que o craque da equipa podia ser o presidente da empresa...


I. T. - Lembro-me que um ano antes da revolução, estava na I Divisão, pelo Timisoara, e ganhava muito acima da média, melhor do que um engenheiro ou um médico... Dava para ter uma boa vida...


R. - Qual era o salário médio de um futebolista romeno?


I. T. - Tinha meses em que... Bem, ganhava em função dos resultados, as vitórias davam direito a prémio, embora não fossem muito elevados.


R. - Pode atirar um número só para ter uma ideia?


I. T. - Em moeda portuguesa?!... Não posso fazer...


S. K. - (rindo-se) Não dá...


I. T. - Não dá, não, porque eram outros tempos, não havia inflação...


A. D. - Só dá comparando com um engenheiro ou um médico...


S. K. - Na Rússia os médicos ganhavam muito mal... e hoje é a mesma coisa... Quando jogava no Dínamo de Moscovo, lembro-me que nós, atletas, não sabíamos quanto iríamos receber no fim do mês. Eu também era muito novinha, tinha 19 anos... Diziam, por exemplo, que eu ia ganhar 100 rublos por mês e depois não era assim. A disciplina era muito rigorosa e durante os treinos não podíamos falar, não podíamos rir. Se o fizéssemos, éramos multados, por exemplo, em dez rublos, descontados depois no ordenado.


I. T. - Metiam ao bolso...


S. K. - Pois metiam... E hoje em dia acontece o seguinte: a um atleta que sai para o estrangeiro dizem-lhe que vai ganhar xis e depois uma parte vai para o treinador, outra para o clube. Sei disso porque tenho colegas a quem isso aconteceu não há muito tempo.


R. - Não sei que a Svetlana era de rir e falar nos treinos, mas, mesmo com os descontos, quanto é que lhe sobrava para viver?


S. K. - Ganhava mais do dobro que a minha mãe, que era médica...


R. - Também tinha um emprego fictício?


S. K. - Não tinha emprego, mas frequentava a universidade. Frequentava... é uma maneira de dizer. Treinava duas, e às vezes três vezes por dia, não sobrava tempo para estudar. Quando tinha um exame, facilitavam, não o ia fazer, mas no fim do ano passava.


CARROS NOVOS E USADOS


R. - Como é que surgiu a oportunidade de jogar em Portugal?


S. K. - Através do meu treinador, que era muito amigo do presidente da Federação Russa. Nessa altura jogava noutra equipa, o Mopi, e ganhámos os Jogos Universitários, em 1990, que era um competição de prestígio na Rússia...


A. D. - Eu sou do século dezanove... (gargalhada geral)


S. K. - O clube vivia com dificuldades e o treinador disse-me que ia jogar um ano para Portugal e que cerca de metade do ordenado que ia ganhar seria para mim, e a outra metade para ele e para a equipa. Vim e acabei por ficar - já cá estou há oito anos...


A. D. - Comecei a praticar desporto, não no século dezanove, e como quase todos da geração que nasceu depois da II Guerra, crescemos na rua e fomos atraídos para modalidades como o boxe e lutas de vários tipos, que pratiquei bastante, mas no fim acabei por optar pelo andebol. Aquela geração praticava desporto mais por gosto do que por dinheiro. Naquela altura o desporto era a única forma de um jovem, que não fosse filho de uma família de um funcionário do partido ou de um engenheiro famoso, subir na vida [o meu pai era "chauffer"] e conhecer o mundo. Sabíamos que havia a Europa, a América e sonhávamos em lá ir e ver como era... Como atleta ganhei uma miséria, o que ganhava um sargento do exército que eu era, um falso sargento. Até menos que o meu pai. Mas havia uma diferença. O meu pai tinha mulher e três filhos e vivíamos num T0, eu dormia com o meu irmão na cozinha e a minha irmã com os pais no único quarto. E podíamos considerar-nos uma família feliz porque muitas outras não tinham sequer isso. Naquele tempo era o Estado que oferecia os apartamentos, não se podia comprar. O meu pai, como trabalhador, esperou dezoito anos por esse apartamento. Eu, como atleta, ao fim de dois anos casei e deram-me um T0. Outra vantagem dos atletas: para comprar carro qualquer pessoa na União Soviética, mesmo que tivesse dinheiro, tinha de esperar anos.


I. T. - Qual era o carro? O “Volga”?


A. D. - “Volga” era só para campeões dos Jogos Olímpicos... As coisas funcionavam assim: se ganhássemos um campeonato da União Soviética não pagavam prémios, mas o General não sei quantos passava-nos um papel a autorizar que este e aquele atleta podiam comprar um carro. Com o dinheiro que eu ganhava não precisava de carro, mas essa compra ia render-me mais tarde. A União Soviética era o único país no mundo onde um carro usado valia cinco vezes mais do que um carro novo... Porque para comprar um novo tinha de se esperar anos e anos e um usado podia ser logo utilizado. Até faziam "bicha" para comprar um usado...


JOGAR COM DEDOS PARTIDOS


R. - Quer dizer que havia um controlo absoluto das autoridades sobre a vida pessoal e desportiva dos atletas...


A. D. - Lá um treinador era Deus...


I. T. - Não havia respeito, mas sim medo...


A. D. - Se o treinador dizia não, acabava a conversa... Imagine que o ABC ia jogar a França e um dos atletas não andava a treinar em condições... Eu dizia-lhe: não vais a Paris! Qual é o problema para ele? Lá, naquela altura, imagine o que era o treinador chegar ao pé de um jogador e dizer-lhe que já não ia Paris... Era uma tragédia! Primeiro porque era a única hipótese de atravessar a fronteira, segundo porque num torneio no estrangeiro, um atleta ganhava mais do que num ano no clube. Por isso é que muitos futebolistas e atletas de bom nível que jogam na Rússia chegam a Portugal e se perdem. Não estão habituados a trabalhar assim, sem ninguém a controlar.


I. T. - Antes de 1989 só fiz uma viagem ao estrangeiro, à República Checa, pelo Timisoara. Não tínhamos passaporte individual, havia uma tabela com os nomes que era controlada por agentes da polícia secreta que vinham na comitiva para vigiar os jogadores. Nessa viagem parámos duas a três horas em Budapeste e dois colegas meus fugiram com a ajuda de uns amigos da Alemanha. Não queira saber o que passámos, os outros que ficaram, nessa semana, foram massacrados com interrogatórios.


R. - Acalentava, também, o sonho de dar o salto para o Ocidente?


I. T. - O futebol profissional para mim aparece por acaso. Era um bom aluno e o meu sonho era tirar o curso universitário. Jogava num pequeno clube, da II Divisão B de lá, fiz um campeonato bom e o Timisoara, que é o clube do meu coração e não o Boavista (risos), foi buscar-me. A partir daí comecei a dar nas vistas, cheguei à selecção e vi que o futebol podia ser o meu futuro. Se não fosse isso, seria hoje, provavelmente, um anónimo professor de educação física na Roménia.


R. - Se vos pedisse que apontassem as virtudes e os defeitos do modelo que existia na URSS em relação ao desporto de alta competição, o que diriam?


S. K. - Um aspecto positivo desse modelo era a noção muito clara que os jovens tinham de que para subir na vida era preciso fazer sacrifícios e ter um carácter forte. Penso que isso nos ajudava muito a vencer na competição... Como coisa negativa eu diria a forma como éramos vistos e tratados, como se fossemos máquinas... Hoje as coisas já não são assim, mas lembro-me que a primeira vez que fui à Bulgária jogar, pelo Dínamo, houve uma reunião com pessoas do KGB que depois seguiram na viagem e que nos deram instruções muito claras que não podíamos falar ou contactar com ninguém de fora, nem sequer olhar...


A. D. - Em termos de desporto de alta competição acho que as coisas funcionavam melhor lá do que cá, no Ocidente. Quando cá cheguei disseram-me logo: os portugueses, coitadinhos, não podem ficar longe da família mais de duas semanas, e outras conversas desse género. É ridículo e não aceito isso. A minha primeira viagem fora do país, como atleta, foi à Jordânia e também fomos acompanhados por um agente do KGB, que foi substituir o nosso treinador adjunto, e que obrigou o dono do hotel a retirar todos os televisores dos quartos. Para não sermos seduzidos... Mas, por outro lado, o espírito dos atletas do Leste da Europa era muito mais forte. Parti quatro vezes os dedos da mão [mostrando as sequelas dessas fracturas], mas nunca pedi a nenhum médico para faltar a um jogo por causa de um dedo partido. Ninguém me perceberia, nem o treinador nem os companheiros. Tinha de pôr uma ligadura e ir jogar. Uma vez joguei com uma costela partida, com uma esponja no peito que parecia a Marilyn Monroe... (ri-se) E era guarda-redes...


PROPAGANDA DO REGIME?


R. - Consideram que todo esse investimento do regime comunista no desporto servia como forma de propaganda e instrumento para desviar as atenções da população para a falta de liberdade e para os problemas sociais?


S. K. - Penso que sim...


A. D. - A verdade é que o alto nível que o Desporto atingiu foi muito mais importante para a população. Os sucessos desportivos faziam esquecer o nível de vida, o pouco dinheiro para comprar comida, sapatos, etc. Era o orgulho nacional em causa e que foi importante na época da guerra fria. Desporto e o exército eram as duas áreas onde o Governo ou o regime mais investiam (...) Até aos 30 anos acreditei em toda aquela propaganda, não tenho vergonha de dizer isto. Que éramos melhores, que estávamos a ajudar metade do mundo, da África à Nicarágua e ao Vietname. Eu era militar, participei na entrada das tropas russas na Checoslováquia e mais tarde quis oferecer-me como voluntário para a guerra do Afeganistão. Mas não me deixaram porque já tinha ultrapassado o limite da idade, tinha acabado nessa altura a carreira de jogador. Acreditei naquilo que lia nos jornais e ouvia e via nas rádios e na televisão, que nós tentávamos salvar o pobre povo do Afeganistão, que não podíamos passar a fronteira porque apareciam dezenas de agentes da CIA, que só devíamos andar acompanhados, etc., e quando comecei a sair para o estrangeiro com o andebol verifiquei que, afinal, ninguém vinha ter comigo... Além disso, lia muito, tinha uma biblioteca grande, com alguns livros proibidos na URSS, de Soljenine, por exemplo, que comprava lá fora, e se fosse apanhado ia preso (...) Quando vim para Portugal pensei: vou trabalhar dois anos, ganhar dinheiro e regressar para ter uma boa vida. Quem trabalhava fora garantia o futuro. Mas, entretanto, o Estado desmoronou-se e tudo o que ganhei cá não dá para comprar um apartamento lá. Infelizmente, não sou treinador de futebol...


R. - Como é que justificam a perda de competitividade do desporto dos países de Leste europeu desde a falência do sistema socialista?


A. D. - Não vou discutir com a Svetlana [que tinha acabado de referir que o voleibol na Rússia hoje está melhor do que estava na ex-URSS]. Mas pergunto: quem é hoje o campeão europeu de clubes de voleibol, masculino e feminino? Não é a Rússia, pois não!?, e antes era. Acho que piorou e vai piorar mais. Hoje um atleta de vólei ou outra modalidade da I Divisão na Rússia ganha muito mais do que qualquer outra pessoa. Mas o nível desse atleta, comparando com outro de há dez, quinze anos atrás, não tenho dúvidas que este era muito mais forte do que aquele. Antes os russos ganhavam, até no voleibol, os JO, os campeonatos do mundo... No andebol a selecção russa actual joga com "dinossauros", atletas de 35, 36 anos, e os novos valores são cada vez menos. Só que a Rússia é um país imenso e sempre aparecem dez ou quinze bons, mesmo que ninguém trabalhe a sério com eles. Comparando: Portugal tem um campeonato de andebol com mais força que a Rússia. Quem pensaria há dez anos que isso fosse possível?


S. K. - No voleibol a melhor equipa portuguesa só pode jogar na II Divisão da Rússia (...) Concordo com o que disse o sr. Donner, mas o voleibol na Rússia é hoje um caso à parte (...)


I. T. - Antes o desporto era fomentado ao nível do Estado, em particular o futebol. Hoje se este vai sobrevivendo, as outras modalidades, em algumas das quais a Roménia era uma potência mundial, como o andebol, podem desaparecer de um dia para outro. Não sabem se no fim-de-semana seguinte há dinheiro para pagar uma viagem.


«DOPING» NO DESPORTO DOS PAÍSES DE LESTE


A.D. - Na minha altura não existia “doping”. Infelizmente, nos últimos anos é que a Rússia e as outras repúblicas começaram, com um atraso de muitos anos, a sofrer os efeitos das drogas, da revolução sexual... O único “doping” no desporto que havia era o vodka... (gargalhada) Aliás, nós nem médico tínhamos nos clubes da I Divisão, como é que podíamos sequer pensar em “doping” (...) Na antiga RDA era diferente. Eu na altura estudei no mesmo curso de andebol com um alemão, que me contou algumas coisas a esse respeito. Ele tinha um caderno com informações que nunca dava a ler a ninguém, com um carimbo de "top-secret". Depois da II Guerra, muitos campos de concentração foram tomados pelas tropas russas e mais tarde passaram para a responsabilidade da Alemanha Democrática. E nesses campos havia muitas informações e dados sobre experiências médicas com prisioneiros, acerca da resistência do organismo humano a determinadas substâncias dopantes e os seus efeitos, resistência a cargas físicas, etc. Eles aproveitaram todo esse conhecimento aplicando-o no desporto, sobretudo em determinadas modalidades, sobretudo no atletismo e na natação.


S.K. - Eu era muito jovem, mas nunca me apercebi de alguma coisa que me levasse a suspeitar na existência de “doping”. Pelo menos, no voleibol feminino não havia de certeza...


I.T. - No futebol romeno também arrisco a dizer que não. Era difícil haver “doping” sem que os jogadores se apercebessem. Além disso, essa substâncias dopantes deveriam ser muito caras e dinheiro era coisa que não abundava na Roménia.


QUEDA DO MURO DE BERLIM


I.T. -- Provocou um sentimento geral de esperança. Tive logo a percepção que ia haver uma mudança radical, a vários níveis, sobretudo da liberdade de movimentos e de expressão. E houve. Só que as pessoas continuaram a viver tão mal ou pior, o seu nível de vida degradou-se (...) No desporto profissional, os clubes começaram a ter graves problemas económicos e deixaram extinguir várias modalidades para sobreviverem. No futebol a corrupção tomou conta da sua estrutura. Os resultados são falsificados. Antes da queda do Muro, quando se jogava com um clube mais forte, o delegado do partido falava com o treinador e este com o capitão, para ordenar que deixássemos ganhar o adversário. Aconteceu comigo quando estava no Timisoara. Não tínhamos como deixar de cumprir a ordem, embora nos custasse bastante. E nada transpirava cá para fora. Hoje em dia são os arranjos e as combinações que fazem lei no futebol romeno. Por isso é que o público deixou de ir aos jogos porque o descrédito é total. (...) Só a selecção é sagrada e mantém um bom nível porque a "geração de ouro", como é chamada na Roménia, saiu quase toda ao mesmo tempo para o estrangeiro, para bons clubes e campeonatos competitivos. Aliás, o actual seleccionador, Piturca, tentou o ano passado uma aposta na juventude, mas os resultados foram maus e tiveram de recorrer outra vez ao Hagi, ao Sabau e outros mais.


A.D. -- As mudanças no sistema na União Soviética, incluindo na área do Desporto, começaram antes da queda do Muro de Berlim, com a ascensão de Gorbatchov ao Poder. Foi um terramoto. Ele conseguiu destruir tudo em pouco tempo. Reconheço o mérito e o talento dele (risos). O que há hoje na Rússia não sei o que é. Há quem diga que é capitalismo, mas se é, é um capitalismo selvagem! Tudo piorou. Tenho três filhos, dois deles no desemprego (...) Não estou a dizer que o sistema anterior era um modelo de virtudes, longe disso. Nunca fui comunista. A “cortina de ferro” isolou-nos do mundo e deixou as pessoas "cegas". A censura que existia, enfim... havia muitas coisas más, mas, também, muitas coisas boas... Acho que o fomento do Desporto não deve estar nas mãos de “sponsors”, mas sim do Estado, a quem tem de caber a planificação e gestão. Aliás, os resultados alcançados pelos países de Leste nas grandes competições internacionais antes e depois do colapso do sistema comunista falam por si. A queda do Muro foi um símbolo e, se bem que eu, pessoalmente, não alimentasse muitas esperanças, havia um sentimento geral de que as coisas iriam melhorar. Mas ao fim de dois anos a ouvir diariamente Gorbatchov, percebi que era só treta... Nem ele próprio sabia o que tinha iniciado nem como ia acabar...


JOÃO CARTAXANA»

FONTE: Record

quinta-feira, 16 de maio de 2013

VANESSA FERNANDES

«O que correu mal a Vanessa Fernandes?

Sem­pre à morte, Vanessa?

Em nen­huma estrada de Por­tu­gal há tan­tos ciclis­tas como na que liga Arcoz­elo aos Car­val­hos, no con­celho de Gaia. São de todas as idades e tipos, mas prin­ci­pal­mente homens para cima dos 50 anos ped­a­lando bici­cle­tas de com­petição e enver­gando capacetes, calções de licra, blusas jus­tas e sap­atil­has espe­ci­ais. Vê-se que há a febre do ciclismo à volta de Per­os­inho e isso só pode ter uma expli­cação: Vences­lau Fernandes.

O “velho Lau”, como lhe chamavam quando era novo, tem uma loja e uma ofic­ina de bici­cle­tas na rua 25 de Abril, no cen­tro da vila. De fato-macaco azul, cabelo branco com­prido e des­gren­hado, é lá que passa a maior parte dos seus dias, a vender e a con­ser­tar bici­cle­tas. Não manda emb­ora nen­hum cliente, ainda que este­jam out­ros à espera e já sejam 10 ou 11 da noite. E nunca deixa de lhes explicar as ver­tentes  mais sub­tis dos prob­le­mas mecâni­cos das suas bici­cle­tas. Mesmo que isso implique não lhes vender uma roda, mas ape­nas sub­sti­tuir os cubos ou a cas­sete de cremalheiras.

Na ofic­ina de Vences­lau, o rádio está sem­pre sin­tonizado na Renascença, e tanto pode pas­sar música como uma missa inteira, com a Avé Maria rezada em coro pelos fiéis numa igreja. Num caso ou noutro, Lau não pára de falar. Tem sem­pre assunto e um grande orgulho nisso. “Se eu começasse a contar-lhe todas as min­has histórias”, diz ele, “ficaríamos até de manhã e nem daríamos pelo pas­sar das horas, porque são coisas tão inter­es­santes que temos sem­pre von­tade de ouvir mais”.

Vences­lau Fer­nan­des, o antigo ciclista que par­ticipou 22 vezes na Volta a Por­tu­gal e gan­hou uma, em 1984, é uma figura incon­tornável em Per­os­inho. Além da ofic­ina de bici­cle­tas, fun­dou um clube de tri­atlo e treina jovens atle­tas. E out­ros não tão jovens. Nos cir­cuitos que orga­niza pelas estradas da região par­tic­i­pam ciclis­tas de todas as categorias.

Nesta manhã de domingo de Junho, por exem­plo, o per­curso vai de Per­os­inho a Ovar, Furadouro, Oliveira de Azeméis, S. João da Madeira, Estar­reja… uns 100 quilómet­ros que Vences­lau, de 66 anos, vai ped­alar em ritmo de cor­rida, ao lado do filho, Vences­lau júnior, de 15 anos, que se prepara para o Campe­onato Nacional de Ciclismo do fim-de-semana seguinte, e um grupo de ciclis­tas ado­les­centes e outro de séniores. E ainda de uma con­vi­dada espe­cial, a mesma que surge nos pósteres e arti­gos de jor­nais afix­a­dos por toda a ofic­ina e andava há muito afas­tada destas cor­ri­das. “Redorde de vitórias”  é o título de um dos arti­gos na parede. Outro diz: “O mundo a seus pés”.

Vences­lau Fer­nan­des é o segundo habi­tante de Per­os­inho mais famoso do mundo. O primeiro é a sua filha mais velha, Vanessa Fernandes.

Vanessa está aqui em seg­redo. Teori­ca­mente, afastou-se das com­petições e treinos e refugiou-se algures numa estân­cia longín­qua e descon­hecida. Na real­i­dade, está há meses inter­nada num cen­tro de recu­per­ação para doentes com­pul­sivos, no cen­tro do país. Veio pas­sar uma sem­ana a casa, mas vai voltar para a clínica, onde ficará mais um mês.

Cor­tou a comu­ni­cação com todo o seu pas­sado, os cole­gas e os ami­gos. Não atende o tele­fone, não fala a jor­nal­is­tas, e até os con­tac­tos com a família têm sido espaça­dos e cur­tos. Foi entregue a uma equipa mul­ti­dis­ci­pli­nar de cerca de 20 ele­men­tos, chefi­ada pelo treinador de atletismo Paulo Colaço e o psicól­ogo E. S., e acom­pan­hada pelos pais, Vences­lau e Her­mí­nia Fer­nan­des, e o pres­i­dente da Fed­er­ação de Tri­atlo, José Luís Ferreira.

O trata­mento a que está sub­metida é inten­sivo e inte­grado, mas ao mesmo tempo Vanessa Fer­nan­des está a treinar. Segundo Paulo Colaço, o objec­tivo é ape­nas man­ter a forma física e um nível de preparação que per­mita à ex-atleta voltar à alta-competição se e quando quiser.

No entanto, o seu ritmo de três treinos por dia, de cor­rida, natação e ciclismo, tem vol­ume e inten­si­dade con­sen­tâ­neos com uma preparação para par­tic­i­par já nos próx­i­mos Jogos Olímpi­cos, em 2012, em Londres.

***

Muito poucos atle­tas no mundo gan­haram tan­tas medal­has tão jovens e em tão pouco tempo como Vanessa Fer­nan­des. Começou a par­tic­i­par em campe­onatos europeus de juniores aos 16 anos, pouco depois de ter ido viver para o Cen­tro de Alto Rendi­mento (CAR) do Jamor, por con­vite da Fed­er­ação de Tri­atlo de Por­tu­gal, e aos 17 obteve a primeira medalha europeia de bronze. Em 2003, com 18 anos, era campeã europeia júnior, mas já há um ano que par­tic­i­pava nas com­petições a Taça do Mundo de elites. Ainda tinha 18 anos quando gan­hou a sua primeira com­petição da Taça do Mundo de elites, em Madrid. Em 2004 ficou em 8º lugar nos Jogos Olímpi­cos de Ate­nas, e a par­tir daí começou a colec­cionar vitórias no cir­cuito da Taça do Mundo. Em 2006 foi segunda nos Mundi­ais de Lau­sanne, e em 2007 tornou-se campeã do Mundo. Entre 2006 e 2007, aliás, gan­hou 20 medal­has de ouro em com­petições de alto nível. Taças do Mundo gan­hou, ao todo, 20. Além de 4 vitórias no Campe­onato da Europa de sub-23, e duas nos campe­onatos do Mundo de Duatlo. Só no ano de 2006, o mais pro­du­tivo da sua car­reira, con­quis­tou onze vitórias, 6 das quais em Taças do Mundo.

Em 2008 obteve a medalha de prata nas Olimpíadas de Pequim, e depois começou a crise. Ofi­cial­mente, teve várias lesões e prob­le­mas de moti­vação. Os resul­ta­dos pio­raram. Em 2009 decidiu aban­donar o CAR e regres­sar a casa, em Per­os­inho. Rompeu com Sér­gio San­tos, o treinador da Fed­er­ação, com quem tinha ganho tudo, e começou a tra­bal­har com Paulo Colaço, um téc­nico do Porto.

Mas os resul­ta­dos desportivos não mel­ho­raram. A moti­vação para o treino tam­bém não. Ten­tou ter uma vida nor­mal, divertir-se, ter ami­gos e paixões, como qual­quer jovem, mas tam­bém isso não cor­reu bem.

Em Fevereiro deste ano anun­ciou o aban­dono da prática desportiva de alta-competição. Pouco depois foi inter­nada e não mais se ouviu falar dela.

***

Vanessa nasceu em 1985, um ano depois de o pai ter ganho a Volta a Por­tu­gal. Vences­lau estava no seu auge desportivo. Con­tin­uou a par­tic­i­par em muitas provas, incluindo a Volta, e a mul­her con­tin­uou a acompanhá-lo. Depois do casa­mento, Her­mí­nia deixara a sua terra, S. João de Ver, perto de Sta Maria da Feira, onde tra­bal­hava numa fábrica de rol­has, para viver em Per­os­inho, onde não tinha família nem con­hecia ninguém. Deixou de tra­bal­har e aborrecia-a ficar soz­inha em casa quando o marido ia para as provas, por isso seguia-o sem­pre que podia. Prin­ci­pal­mente na Volta a Por­tu­gal e na sua etapa mais famosa e mais ani­mada: a da Serra da Estrela. Bebé, na alcofa, Vanessa ia também.

Era uma festa. Her­mí­nia cos­tu­mava levar as irmãs, e os respec­tivos mari­dos, que inte­gravam a claque de Lau e dos irmãos António, José e Leonel, que tam­bém com­petiam na cor­rida. Os apoiantes ficavam todos acam­pa­dos, enquanto os corre­dores se insta­lavam num hotel. As mul­heres coz­in­havam canja e out­ros ali­men­tos para os atle­tas, os homens con­tribuíam de outra forma. Naquela época, era cos­tume (e per­mi­tido) que os ami­gos de cada corre­dor o aju­dassem no troço mais difí­cil da etapa, empurrando-o pela subida da Torre.

Formavam-se grandes gru­pos de “empurras”, que se assum­iam como rivais uns dos out­ros e se envolviam em colos­sais cenas de pan­cadaria.  “Nós ficá­va­mos doentes de emoção”, recorda Her­mí­nia, que ainda não tinha 30 anos.

Vences­lau tinha 40 quando Vanessa nasceu, 39 quando gan­hou a Volta pela primeira e última vez. É um luta­dor. Um homem seco e rijo, que olha o inter­locu­tor nos olhos e irra­dia jovi­al­i­dade e amar­gura ao mesmo tempo. Um homem simul­tane­a­mente andrógino e viril, agres­sivo e doce. “A der­rota não é de quem chega atrás. É de quem não se esforça para con­seguir”, diz. “Com­peti­mos sem­pre connosco próprios. Os adver­sários não são nos­sos inimi­gos. Sem adver­sários não con­seguiríamos ter sucesso”.

Nasceu muito pobre. Era o mais velho de sete irmãos, e aos 5 anos teve de começar a tra­bal­har, car­regando ces­tos de terra para as obras. Gan­hava 25 tostões por dia. Depois começou a levantar-se mais cedo, antes das seis da manhã, para aju­dar o padre a preparar a missa. Com isto jun­tava mais 25 tostões. Aos 6 anos entrou para a escola, que acu­mu­lou com os dois “empre­gos”, e ainda mais um, a par­tir dos 9 anos: tra­bal­har como trolha, no Porto, para onde ia todas as tardes a pé, 30 quilómet­ros ida e volta. O din­heiro que gan­hava entregava-o quase todo à mãe.

Com o pai, gostava de ir ver os ciclis­tas da Volta a Por­tu­gal a pas­sarem pelos Car­val­hos, e, aos 11 anos, tinha poupado din­heiro para com­prar a primeira bici­cleta, ao tio Custó­dio, que emi­grara para a Venezuela. Entrou numa cor­rida, no Porto, mas caiu, par­tiu a bici­cleta e teve de desi­s­tir. Con­tin­uou a ten­tar. Aos 20 anos, com um emprego das 7h30 da manhã às 8 da noite, con­seguiu par­tic­i­par pela primeira vez na Volta a Por­tu­gal. Ficou em último lugar.

Tra­bal­hou numa fábrica e depois numa ser­ral­haria, onde com­pen­sava, com horas de tra­balho noc­turno, as que gas­tava de dia com os treinos. Em 1966, com 21 anos, ficou em 32º na Volta. E con­tin­uou, até que em 1970 o Cen­tro de Med­i­c­ina Desportiva do Porto lhe detec­tou um sopro no coração e o con­siderou inca­paz para a prática desportiva.

Foi para França tra­bal­har na con­strução civil. Mas regres­sou no ano seguinte, para ten­tar outra vez a Volta. Submeteu-se a novos exames de várias jun­tas médi­cas, e só no próprio dia do iní­cio da prova con­seguiu a aprovação, no Hos­pi­tal de S. João do Porto. Cor­reu para Cam­panhã, apan­hou o com­boio e chegou a tempo de alin­har na par­tida. Esgo­tado e ser ter comido o dia todo, ficou em último na etapa. Chegaria ao fim em 11º lugar.

Con­tin­uou a con­cor­rer, sem nunca gan­har. Aos 35 anos começou a ser con­hecido pelo “velho Lau”. Ciclis­tas como Joaquim Agostinho e Marco Cha­gas fiz­eram na mesma época as suas car­reiras bril­hantes, deixando Vences­lau na sua som­bra. Mas ele esperou pacien­te­mente, e sobreviveu-lhes. Em 1984, aos 39 anos, o “velho Lau” ganha final­mente a Volta. “Deixem-me abraçar este momento”, disse ele aos jornalistas.

Em 1987 já era o ciclista mais velho do mundo em provas profis­sion­ais por eta­pas, mas pare­cia que a sua car­reira mal tinha começado. Em 1990, com 45 anos, caiu da bici­cleta, foi lev­ado de ambulân­cia, que teve um aci­dente, ferindo Vences­lau outra vez. Em 1991, com 46 anos, lá estava ele na sua 22ª Volta a Por­tu­gal. Ficou em 69º lugar e não con­cor­reu mais. Foi con­ven­cido a parar, con­tra a sua von­tade, sob a ameaça de ver can­ce­lada a sua licença desportiva.

***

Nessa altura Vanessa tinha 6 anos e já uma notória destreza física. O pai inscreveu-a na natação, no Sport­ing de Espinho, com o objec­tivo de lhe pro­por­cionar uma for­mação desportiva com­pleta. Aos 3 anos comprara-lhe a primeira bici­cleta, com rod­in­has, e aos 4 ela já usava para ir de casa para a ofic­ina, que fica a cerca de um quilómetro.

“Vamos fazer uma cor­rida?” desafi­ava ela. “Daqui até ali”. Cor­riam e Vences­lau tinha de a deixar gan­har, ou ela ficara incon­solável. Sem­pre foi assim. Sem­pre gos­tou de ganhar.

Fez a escola primária em Per­os­inho, mas depois, como na vila não havia secundário, foi para os Car­val­hos. Foi lá que começou a par­tic­i­par em provas esco­lares de atletismo. Com 9 anos, o pai levou-a a um pro­fes­sor de atletismo na Maia, que ficou sur­preen­dido com ela e a fez entrar em várias provas. Vanessa tomou-lhe o gosto. Ia ao Porto, a Braga, a Aveiro, cor­ria e ganhava.

Que­ria par­tic­i­par em tudo. Um dia fez uma prova de atletismo na Maia, de manhã. Mas que­ria tam­bém entrar numa de natação, num campe­onato em Aveiro, à tarde. Vences­lau levou-a de moto, ela com a sua mochila, ansiosa por gan­har mais uma competição.

Gostava de atletismo, emb­ora fizesse tam­bém ciclismo com o pai, e natação, que ele con­sid­er­ava uma boa activi­dade para a forma física. “É impor­tante para qual­quer atleta”, explica. “Eu sem­pre disse aos meus fil­hos: o mel­hor inves­ti­mento que vocês podem fazer é na vossa saúde. Por isso sem­pre quis que eles desde cedo prat­i­cas­sem várias modal­i­dades, não para que viessem a ser atle­tas de alta-competição, mas para que tivessem uma for­mação com­pleta. Porque eu dei uma boa for­mação aos meus fil­hos. Não andei a dormir”. Além do desporto, Vanessa fre­quen­tou a Escola de Música de Per­os­inho, a apren­der flauta trans­ver­sal. Vânia, a irmã mais nova, apren­deu violino.

Mais tarde, esta edu­cação mul­ti­fac­etada seria apon­tada como uma das causas do génio desportivo de Vanessa Fer­nan­des. Além, obvi­a­mente, dos fac­tores genéti­cos — as car­ac­terís­ti­cas físi­cas e, sobre­tudo, psi­cológ­i­cas her­dadas de Venceslau.

Quando Vanessa tinha 13 anos, apare­ceu lá na loja um amigo do pai, José Mariz, diri­gente do Bele­nenses, que desafiou Vences­lau a levar a filha a uma prova de tri­atlo, em Peniche. Vanessa nem sabia o que isso era. “Teatro? Ok, vamos lá fazer isso”.

Vences­lau arran­jou uma bici­cleta e, na véspera da prova, foram treinar. Na fúria de ultra­pas­sar o pai, Vanessa meteu a roda dianteira na vala de uma obras, caiu e ficou cheia de nódoas negras. Mas não quis desi­s­tir. Às 5 da manhã Vences­lau foi buscá-la à cama, e levou-a ao colo para o carro, a dormir. Chegaram a Peniche às 8.

Era uma prova nacional com 200 atle­tas, 750 met­ros de natação, 20 quilómet­ros de bici­cleta e 5 de cor­rida. A ondu­lação do mar estava tão forte, que Vences­lau chegou a pen­sar proibir a filha de entrar. Mas lá lhe expli­cou as regras e ela foi. No fim da prova de natação, ele viu sair da água três homens e depois uma rapariga. Vinha trans­fig­u­rada, nem a recon­heceu, pare­cia estrangeira. Mas era ela, Vanessa.

Mon­tou na bici­cleta e ele foi atrás na sua, que tinha escon­dida, porque era proibido acom­pan­har os atle­tas. Vanessa com­ple­tou tudo em 1º lugar, na sua cat­e­go­ria. Na geral ficou em 2º. Vences­lau com­preen­deu logo. “Se quis­eres ficar no tri­atlo, não perdes uma prova”, disse à filha. Não vejo adver­sários para ti”.

***

Vanessa ficou. Começou a par­tic­i­par em provas, a gan­har e a dar nas vis­tas. Aos 15 anos foi con­vi­dada pela Fed­er­ação de Tri­atlo a entrar para o Cen­tro de Alto Rendi­mento do Jamor. Inter­nada nas insta­lações espe­ci­ais anexas ao Está­dio Nacional, ela pode­ria dedicar-se inteira­mente ao treino, usufruindo da pista e piscina olímpica, e de uma equipa téc­nica de alto nível.

Her­mí­nia e Vences­lau vac­ila­ram. Achavam que ela era demasi­ado jovem. Mas Vanessa estava fasci­nada com a ideia. Pediu, chorou, e acabou por ir. Os pais impuseram algu­mas condições. As prin­ci­pais eram que con­tin­u­asse a fre­quen­tar a escola e as aulas de música. Foi-lhes garan­tido que sim.

Em Setem­bro de 2001 Vanessa estava a viver no CAR, matric­u­lada na Escola Secundária de Linda-a-Velha e treinada por Sér­gio San­tos, o direc­tor téc­nico nacional. Formou-se um grupo pequeno de atle­tas (três rapari­gas e qua­tro ou cinco rapazes), entre os quais Vanessa era a mais nova, e foi cri­ado um ambi­ente de tra­balho ideal.

O treino era intenso, con­cen­trado e bem con­duzido, e os resul­ta­dos não tar­daram a apare­cer. Vanessa gan­hava. Esforçava-se, cumpria, concentrava-se, e, onde quer que fosse, ganhava.

O pro­gresso foi veloz e espec­tac­u­lar, o que provo­cou uma eufo­ria e uma ver­tigem. “Em atle­tas muito jovens, a evolução é muito ráp­ida”, explica Sér­gio. “Os objec­tivos são atingi­dos rap­i­da­mente, o que gera um grande entusiasmo”.

Vanessa sen­tia que o seu tra­balho pro­duzia efeitos ime­di­ata­mente, e por­tanto dava o máx­imo. Nos primeiros anos teve bons resul­ta­dos, mas a par­tir de 2003 era a mel­hor. “Ela tinha uma aura de gan­hadora”, conta Maria Are­osa, atleta de tri­atlo que entrou para o CAR na mesma altura, emb­ora seja um ano mais velha. “Ela sabia sem­pre que ia gan­har. Chegava à prova e pen­sava assim: o primeiro lugar é meu, vocês dis­putam os out­ros. E com toda aquela força men­tal, as out­ras olhavam para ela e já tin­ham perdido”.

Vanessa era tão con­fi­ante, que não se deix­ava intim­i­dar por nada. Maria lembra-se de um dos primeiros campe­onatos inter­na­cionais em que par­tic­i­param as duas, em Lugo. Todas as out­ras atle­tas eram mais vel­has. “Está­va­mos cheias de medo, mas a Vanessa não. Disse logo: Isto é tudo uma por­caria, nós cheg­amos ali e gan­hamos aquilo tudo”.

Dois meses depois, na Ale­manha, foi ainda pior. Todos os con­cor­rentes tin­ham equipa­men­tos sofisti­ca­dos, de mar­cas exclu­si­vas, uma roupa para cor­rer, outra para o ciclismo… “Está­va­mos fasci­nadas e, mais uma vez, cheias de medo. A Vanessa declarou: Estas gajas têm a mania que andam muito, mas nós vamos dar-lhes uma coça”.

E depois com­petiu com tanta paixão que, ao pas­sar da bici­cleta para a cor­rida, se esque­ceu de calçar as sap­atil­has. Só reparou quando sen­tiu a aspereza do chão nos pés descalços. Ao vê-la chorar, Maria descalçou um dos seus ténis e atirou-lho. Ter­mi­naram a prova assim, com um sap­ato cada uma.

Em 2004, na Taça do Mundo, “a mais nova que lá estava era pelo menos 10 anos mais velha do que nós”. Mas Vanessa atrav­es­sou a meta em primeiro. “Como sabia ela que ia gan­har? Não sei como fazia. É mesmo maluca. Tem garra, é com­pet­i­tiva. Tem fome de gan­har. Ela é uma gan­hadora. Se não for no desporto, se se dedicar a outra coisa qual­quer, será sem­pre uma ganhadora”.

***

A vida no CAR era obses­siva. Treinava-se desde as 6 da manhã até às 8 da noite, todos os dias. Não havia mais nada. Tudo era orga­ni­zado em função dos treinos, dos cinco treinos diários. Todos os atle­tas dormiam em quar­tos dup­los, excepto Vanessa, que tinha um só para si. Mas era um cubículo claus­trofóbico. Depois do jan­tar, Vanessa ia ter com os cole­gas, que se reu­niam no quarto de um deles, para con­ver­sar. Mas os temas não eram muito vari­a­dos. “Falá­va­mos sobre tri­atlo”, conta o tri­atleta Bruno Pais, que esteve inter­nado no CAR entre 2000 e 2007, e hoje, aos 29 anos, vive na sua própria casa, com a mul­her e a filha, perto do Cen­tro. “O que fazíamos era comer, dormir e treinar todos os dias. Não íamos ao cin­ema nem sair à noite. Por isso os nos­sos temas de con­versa eram os treinos, os tem­pos que fize­mos, as reacções do treinador”.

Aos fins-de-semana, alguns iam a casa, mas lev­avam um pro­grama de treino rígido para cumprir. Na alta-competição não há dias de folga. “Desde que foi para Lis­boa, ela ficou difer­ente”, diz Vânia, a irmã de Vanessa. “Não que­ria saber de nada além daquilo. Não se inter­es­sava por nada, não que­ria sair à noite, não ouvia música”.

Por viverem longe, Vanessa e Bruno (que é do Fundão), ficavam muitas vezes no Cen­tro. Vanessa pas­sava alguns fins-de-semana em casa de Sér­gio, no Alen­tejo. O treinador con­sid­er­ava que era a mel­hor opção, porque ir a Per­os­inho cansava-a e perturbava-a.

Sér­gio San­tos tinha fama de ser um treinador com­pe­tente e rig­oroso, mas tam­bém frio e implacável. Não per­doava qual­quer pre­var­i­cação ou que­bra de dis­ci­plina. “Se chegava atrasado ao treino, fazia mais mil met­ros de natação, de cas­tigo”, conta Bruno. Ou se Vanessa se deix­ava dormir e não chegava à hora com­bi­nada de par­tida da car­rinha para algum local especí­fico, Sér­gio não esper­ava e fazia-a ir a cor­rer até ao local do treino.

O treinador esta­b­ele­cia uma relação intensa com os atle­tas, que simul­tane­a­mente o admi­ravam e temiam. Quando ele não ficava sat­is­feito com uma per­for­mance, nem pre­cisava de falar: os seus olhos diziam tudo. Vanessa tinha medo desse olhar reprovador de Sérgio.

“Os treinos são muitos vio­len­tos, esta­mos sem­pre nos lim­ites da resistên­cia”, diz Bruno. Vanessa queixava-se mas não deix­ava de cumprir. “Estou toda rota”, repetia ela. Mas treinava, e chegava às provas e gan­hava. “Então estavas toda rota?” brin­cavam os colegas.

Sér­gio esta­b­ele­ceu objec­tivos ambi­ciosos. Com Vanessa, que­ria gan­har tudo. Em 2003 apon­tou logo os Jogos Olímpi­cos de 2004 como meta, e depois, como a atleta tivesse obtido em Ate­nas  o 8º lugar, ainda com 17 anos, começou a tra­bal­har para Pequim em 2008.

O regime de treino era ade­quado a este fre­n­esim estratégico. Multiplicavam-se as horas de tra­balho efec­tivo, e os tem­pos livres e de des­canso eram mon­i­tor­iza­dos ao por­menor. A ali­men­tação tam­bém, ape­sar de não haver no Cen­tro um nutri­cionista nem um psicól­ogo. Às horas das refeições os treinadores obser­vavam os pratos de cada um e diva­gavam perigosa­mente sobre a cor­re­lação entre gra­mas de peso cor­po­ral e segun­dos nos tem­pos das provas.

“Se perderes um quilo cor­res mais rápido 10 segun­dos por quilómetro”, dizia o treinador, segundo Maria Are­osa. “Se a difer­ença entre ser 5º ou 1º na Taça do Mundo for de 20 segun­dos, a dis­tân­cia entre ter uma medalha ou não é de dois quilos”.

Vanessa ia cada vez menos a casa, e quando ia lev­ava uma tenda espe­cial em cujo inte­rior era cri­ada uma atmos­fera arti­fi­cial e rar­efeita para sim­u­lar os treinos em alti­tude. Para exas­per­ação de Vences­lau, a tenda era mon­tada no quarto e Vanessa dormia lá dentro.

O pai de Vanessa não con­cor­dava com nada disto. “Um atleta só a par­tir dos 25 anos é que se explora total­mente. Eu só aos 35 é que estava no auge. Gan­hei a Volta aos 39”. O “velho Lau” não andou na Uni­ver­si­dade, nem fez um mestrado em Treino de Alto Rendi­mento na Área do Tri­atlo, como Sér­gio. Tudo o que sabe, apren­deu à sua custa. No iní­cio da car­reira, comia bife com batatas fritas ao pequeno-almoço, para ter ener­gia para as provas. Com o tempo, num processo de tentativa-erro, foi apren­dendo a escol­her uma dieta ade­quada. E que, por exem­plo, não era prej­u­di­cial ter relações sex­u­ais na sem­ana ante­rior às provas.

Tam­bém quando às idades ade­quadas a cada tipo de treino ele foi tirando as suas con­clusões. “Sem­pre vi isto: os ciclis­tas que aos 15 anos já gan­havam, aos 20 já não que­riam saber da bicicleta”.

Não havia forma de Sér­gio e Vences­lau se enten­derem. O con­flito foi real, por vezes osten­sivo, e durou os nove anos que Vanessa esteve no CAR. Depois de um fim-de-semana em que Vanessa vinha a casa, Sér­gio tele­fon­ava ao pai: “O que é que você lhe faz aí, que ela chega cá abaixo e parece uma velha a cor­rer?” Vences­lau respon­dia: “Quando ela vem é para des­cansar. Um atleta pre­cisa de retem­perar forças”.

Noutra ocasião, depois de Vences­lau ter feito um comen­tário na tele­visão sobre o desem­penho da filha numa prova, foi chamado a Lis­boa para, numa reunião, ser exor­tado a calar-se, para não prej­u­dicar a car­reira de Vanessa.

Esta sentia-se divi­dida e sofria com o con­flito entre o treinador e o pai. Por isso pas­sou a optar por não vir a casa, e falar o menos pos­sível com a família. Prefe­ria pas­sar o fim-de-semana em casa de Sér­gio, o que ofendia Vences­lau e Her­mí­nia. “Eles estavam a espremê-la até à última. A aproveitar-se dela”, diz Lau. “E convenciam-na a não me dar ouvidos”.

Segundo Vences­lau Fer­nan­des, a hos­til­i­dade começou bem cedo, mal ele e a mul­her se aperce­beram de que a filha não ia à escola. “Ela não pre­cisa. Não tem tempo”, ter-lhe-ão dito da Fed­er­ação. O facto é que Vanessa nunca fre­quen­tou as aulas. De iní­cio, a Fed­er­ação justificava-lhe as fal­tas. Depois deixaram-na reprovar. Não chegou a fazer o 10º ano.

No entanto, os reg­u­la­men­tos do CAR ref­erem como objec­tivo a “for­mação plena do cidadão” e “pro­por­cionar condições para o estudo”, e esta­b­ele­cem como regra que se um atleta não tiver aproveita­mento esco­lar dois anos segui­dos será expulso do CAR. Por “aproveita­mento”, explici­tam ainda os doc­u­men­tos nor­ma­tivos do Cen­tro, entende-se pelo menos 50 por cento dos crédi­tos no Ensino Supe­rior e o tran­si­tar de ano no caso do Secundário. Ora Vanessa não tran­si­tou, durante nove anos seguidos.

“Ela não chum­bou: ela aban­do­nou”, começa por explicar José Luís Fer­reira, pres­i­dente da Fed­er­ação de Tri­atlo. “Bom, chum­bou por fal­tas”. Não ia às aulas, por causa do treino. Mas isso deveu-se, segundo o respon­sável da Fed­er­ação, “à falta de apetên­cia da Vanessa pelo estudo. Ela já não ia às aulas antes de vir para cá. Alertei os pais para a situ­ação e eles respon­deram que não fazia mal. Assumi­ram o ónus do problema”.

Vences­lau e Her­mí­nia garan­tem que Vanessa sem­pre foi à escola e foi boa aluna. José Luís, por seu lado, lem­bra que todos os out­ros atle­tas do CAR con­tin­uaram os estu­dos, excepto Vanessa e Bruno. “A Vanessa foi difer­ente, por respon­s­abil­i­dade dela”, aponta. E dá exem­p­los de vários atle­tas de Alto rendi­mento que fre­quen­tam ou con­cluíram cur­sos supe­ri­ores. É o que acon­tece com a sua própria filha. “Já o meu filho mais novo não gosta nem quer estu­dar, mas eu obrigo-o”.

No caso de Vanessa foi con­sid­er­ado prefer­ível aban­donar a escola. “Tinha pouca apetên­cia para estu­dar. O que lhe restava era o tri­atlo. Optou por fazer car­reira no tri­atlo”. E a Fed­er­ação apoiou-a nessa decisão pes­soal e madura, fazendo tábua rasa das suas próprias regras.

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É con­sen­sual entre os cole­gas e treinadores que Vanessa sem­pre teve difi­cul­dade em tomar decisões de forma autónoma. “Ela é o tipo de atleta que pre­cisa de alguém sem­pre ao pé, para incen­ti­var”, diz Bruno Pais. “Não é muito autónoma. Para fazer os seus treinos pre­cisa  do treinador perto, a con­tro­lar tudo”.

Maria Are­osa recorda um dia em que, em Ate­nas, con­hece­ram um treinador espan­hol muito famoso, que andava sem­pre nas capas das revis­tas. Ficaram ambas embeve­ci­das, mas foi Maria quem foi ter com ele, pedindo-lhe para a treinar. Vanessa ficou estar­recida. “Ela nunca seria capaz de tomar aquela ini­cia­tiva. Pre­cisava de se sen­tir segura”. Nunca faria nada con­tra a von­tade dos seus treinadores.

Maria fazia provas fora dos cir­cuitos ofi­ci­ais, em vários países, só pela aven­tura. Par­ticipou numa no Méx­ico e depois ficou lá de férias. Uma vez, par­tiu de carro, com o namorado, e ia par­tic­i­pando em provas, em vários países, para gan­har din­heiro para a viagem. Enquanto ficasse nos primeiros lugares, con­tin­uar­iam. Se perdesse teriam de regressar.

Vanessa, diz Maria, ficava fasci­nada com estas ini­cia­ti­vas. Mas nunca seria capaz de as tomar. Era demasi­ado depen­dente. “Fazia tudo o que lhe man­davam, e gan­hava sem­pre. Por isso pen­sava que estava no cam­inho certo, e con­tin­u­ava a obe­de­cer. Ela con­fi­ava. Nos pais, nos treinadores, desde os 16 anos. E como tinha êxito, con­tin­u­ava a con­fiar”. Mas isso, con­sid­era a amiga, “é con­se­quên­cia da sua edu­cação desportiva. Sem­pre foi assim, já com o pai”.

Sér­gio San­tos não des­mente que Vanessa é uma atleta pouco inde­pen­dente. “Ela pre­cisa de um treinador sem­pre ao lado. Mas não é para a picar. A função do treinador era fazer com ela se con­tro­lasse, andasse mais devagar”.

Sér­gio, que em Junho do ano pas­sado deixou a Fed­er­ação e o CAR do Jamor, é agora téc­nico do Cen­tro de Preparação Olímpica de Rio Maior, que per­tence a uma empresa munic­i­pal, a DESMOR. Atle­tas de difer­entes países vêm para aqui de propósito para tra­bal­har com ele.

“Eu uso 6 veloci­dades difer­entes”, diz ele aos nadadores antes de mer­gul­harem na piscina. “Cada um sabe a veloci­dade a que tem de nadar, de acordo com o que está escrito no quadro”. Para um grupo da selecção olímpica brasileira, que acaba de chegar, explica: “…a 3 é a veloci­dade para dis­tân­cias lon­gas. A 4 e a 5… A 6 é a veloci­dade máx­ima, para dis­tân­cias muito cur­tas, da ordem dos 25 met­ros”. Os atle­tas desa­tam a fazer pisci­nas e Sér­gio vai-os infor­mando, em por­tuguês ou inglês, dos tem­pos que fiz­eram. “O impor­tante não é dar o máx­imo. É cumprir os tem­pos da zona 4”.

Este tipo de con­trolo não era fácil com Vanessa, porque ela que­ria sem­pre dar o máx­imo. “Ao con­trário dos desportos colec­tivos, em que não se nota tanto a difer­ença, nestes desportos indi­vid­u­ais há uma relação muito directa entre tra­balho e resul­tado desportivo”. O atleta sabe que tudo depende dele, e, se está muito empen­hado nos objec­tivos, pode ter tendên­cia para igno­rar os seus próprios lim­ites. Cabe ao treinador não o permitir.

“Quando íamos cor­rer, ela começava logo a dar o máx­imo, e não abran­dava”, conta Maria. “Ninguém aguen­tava. Eu dizia-lhe: ‘Sem­pre à morte, Vanesa? É pre­ciso cor­rer sem­pre à morte?’ Mas ela con­tin­u­ava. Sem­pre ali, no lim­ite das forças. ‘Então Vanessa? Sem­pre à morte, sem­pre à morte’”.

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Na modal­i­dade do tri­atlo, Vanessa Fer­nan­des é uma das mel­hores atle­tas do mundo, de todos os tem­pos. Talvez mesmo a mel­hor. “Ela tem qual­i­dades de grande resistên­cia”, diz Sér­gio. “É exce­lente do ponto de vista fisi­ológico e psi­cológico. E tem com­pet­i­tivi­dade muito grande. Há atle­tas que nunca chegam a fazer, em com­petição, tem­pos tão bons como nos treinos. Ela não é assim. Quando se aprox­ima das com­petições, mel­hora. Trans­forma o ner­vo­sismo em prestação. Tem um per­fil de ataque”.

Sér­gio garante que sabe dis­tin­guir os atle­tas à primeira vista. “À par­tida, alin­ham no pon­tão umas 70 atle­tas. São todas sen­sivel­mente da mesma altura, entre 1m60 a 1m75. Mas ali já se vê. Há umas que pare­cem ter 2 met­ros. Vê-se pelo olhar, pela forma como alin­ham, como se estim­u­lam, dando pal­madas nas per­nas. Há as que sabem que vão gan­har. Vanessa é assim”.

Bruno lembra-se da “garra” e da “von­tade de tra­bal­har” de Vanessa. “Ela treinava com os rapazes, porque o anda­mento dela era equiv­a­lente ao nosso. Ela sem­pre deu o seu mel­hor. E achava nat­ural gan­har. Con­sid­er­ava uma der­rota ficar em segundo”.

Para Maria, ela “é uma per­fec­cionista. Procu­rava a per­feição. Por isso não fazia mais nada. Tem uma força imensa. É uma refer­ên­cia para mim”. Paulo Colaço, o actual treinador, vê em Vanessa o “mod­elo per­feito” de atleta, que con­juga “boas car­ac­terís­ti­cas fisi­ológ­i­cas, derivadas do património genético”, com traços psi­cológi­cos exem­plares. “Ela é per­sis­tente, focal­iza os objec­tivos”, e pos­sui uma imensa “capaci­dade de super­ação. É uma caix­inha de surpresas”.

Licínio Pimentel, corre­dor de estrada de fundo e meio-fundo, que se treinou com Vanessa quando ela regres­sou ao Porto, classifica-a como “uma máquina de guerra”. Não se cansa, tem uma capaci­dade de sofri­mento fora do nor­mal e aquela ati­tude incon­fundível, “de guer­reira”, a cor­rer a a andar de bicicleta.

Paulo, que afirma recon­hecer cada um dos seus atle­tas de olhos fecha­dos, só pelo som dos pés a bater no chão, diz que Vanessa “tem um con­tacto suave e elás­tico com o solo”. Mas é a sua pos­tura na bici­cleta que a torna iden­ti­ficável entre mil­hares. “Na bici­cleta, ela transforma-se, é outra pes­soa. Não aquela rapariga frágil. Enrola os ombros para a frente, fica assim cor­cunda, naquela posição nada fem­i­nina”, descreve Licínio com admi­ração. “Geral­mente as mul­heres não andam assim de bicicleta”.

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Com estas car­ac­terís­ti­cas, em 2006, aos 21 anos, Vanessa gan­hara mais medal­has do que qual­quer outra atleta da sua idade. Quando chegava a uma prova, todos esper­avam que gan­hasse, e isso fez nascer nela um sen­tido de respon­s­abil­i­dade. Não podia perder. E não per­dia. Mas a pressão foi crescendo. Tinha à sua volta os jor­nal­is­tas, os patroci­nadores, os treinadores, a família, o país inteiro. Ela não podia decep­cionar. Era pre­ciso fazer mais. Havia o Campe­onato do Mundo, os Jogos Olímpi­cos. Os objec­tivos eram cada vez mais ambi­ciosos, desmesura­dos. Era pre­ciso ser a mel­hor do mundo.

Vanessa superava-se. Estava cada vez mais em forma, cada vez mais ráp­ida, cada vez mais magra. E adoe­ceu. “Eles pre­cisam das medal­has, por isso não recon­hecem que uma pes­soa está doente”, diz Maria Are­osa. “Ela era a gal­inha dos ovos de ouro”.

Pub­li­ca­mente, não recon­hece­ram. Mas, segundo o pres­i­dente da Fed­er­ação, detec­taram a doença, em 2006. Con­tac­taram o médico do Ben­fica, e “Vanessa começou a ser tratada com as estru­turas médi­cas da Fed­er­ação”, diz José Luís Fer­reira. “Foi assis­tida por uma equipa médica. Mas foi um fra­casso”. Depois, “ela quis um psiquia­tra. Mas tam­bém não resultou”.

Man­tiveram o prob­lema em seg­redo, e Vanessa con­tin­uou a par­tic­i­par em todas as provas, como se nada se pas­sasse. Nesse mesmo ano de 2006 gan­hou 11 com­petições, entre as quais seis Taças do Mundo. Em 2007 venceu a clas­si­fi­cação global da taça do Mundo, em Ham­burgo. Nunca tra­bal­hara a um ritmo tão intenso. “Vanessa com­petiu em Pequim e nas provas ante­ri­ores já doente”, diz o pres­i­dente da Federação.

“Segundo os médi­cos, a doença não foi provo­cada pela prática desportiva, mas era poten­ci­ada por ela”, admite José Luís Fer­reira. E no entanto não houve qual­quer abran­da­mento dessa prática. Vanessa começou a deixar de ter von­tade de com­pe­tir, mas não a deixaram descansar.

“A doença era evi­den­ci­ada por fac­tores de pressão”, diz o pres­i­dente. A pressão a que Vanessa estava cada vez mais sub­metida, pelas provas cada vez mais impor­tantes a que con­cor­ria. Pelos media, pelos patroci­nadores, pelos fãs, e pela obri­gação de ganhar.

“Nós entrá­mos no tri­atlo porque éramos boas, e alguém nos man­dou para ali. Não foi pro­pri­a­mente uma opção”, diz Maria, que em 2004 decidiu aban­donar o desporto, durante 4 anos. “Eles sem­pre acharam que ela ia aguen­tar, porque ela gan­hava sem­pre”. Mas acres­centa: “Chega uma altura em que é mais fácil con­tin­uar do que desistir”.

Vanessa con­tin­uou. “Ela é única, é de outro mundo”, diz José Luís. “Não con­heço ninguém com a mesma capaci­dade de inverter uma situ­ação, em horas. Em 2007 ela estava de gatas. Estive­mos quase para can­ce­lar a sua par­tic­i­pação. Mas depois…”

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2008 era a grande data. Uma medalha de ouro em Pequim era o sonho de todos, desde o iní­cio. Incluindo o de Vanessa, que, desde os nove anos, dormia com um póster de Rosa Mota no quarto. Agora, já não tinha von­tade de lutar por esse sonho, mas fazia-o em nome dos out­ros, dos portugueses.

Nos meses ante­ri­ores aos Jogos, sucederam-se os desaires. No Campe­onato do Mundo, em Van­cou­ver, ficou em 10º, ale­gada­mente por causa da água fria, e na etapa de Ham­burgo desis­tiu, dev­ido a uma suposta intox­i­cação ali­men­tar, depois de tam­bém ter desis­tido em Pon­teve­dra, por risco de hipotermia.

Os diri­gentes da Fed­er­ação sabiam que Vanessa estava pior, que o seu prob­lema se agravava, e, em Pequim, tomaram medi­das. Não a insta­laram na aldeia olímpica, como seria nor­mal, mas numa vivenda que arren­daram em Chang­ping, a 30 quilómet­ros de Pequim e a 500 met­ros do local da prova. Ficou ali iso­lada de toda a con­fusão, na com­pan­hia dos pais, con­vi­da­dos pela Fed­er­ação. “Ao tirá-la da aldeia olímpica, livramo-la de toda a pressão”, explica José Luís. “Para criar as mel­hores condições, e para que ela pudesse mostrar todo o seu potencial”.

Havia grande expec­ta­tiva em relação a um certo número de atle­tas por­tugue­ses. Mas os primeiros dias da sua par­tic­i­pação foram decep­cio­nantes. Não houve medal­has. Telma Mon­teiro e Jes­sica Augusto não gan­haram. O lançador de peso Marco Fortes disse que “de manhã só é bom é na cam­inha”, para jus­ti­ficar o seu 38º lugar. A última esper­ança era Vanessa Fernandes.

“Depois dos jogos, não sei o que vai ser a minha vida”, disse ela à mãe, antes da prova.

“Já fizeste o que muito atle­tas nunca con­seguiram, não tens de provar mais nada a ninguém”, respon­deu Her­mí­nia. Sabia que a filha tinha de parar. Mas não tinha cor­agem para lho dizer clara­mente. Ninguém tinha. “Como podia dizer alguma coisa?” con­fessa Vânia. “Se depois ela fal­hasse eu seria con­sid­er­ada responsável”.

Vences­lau sen­tia o mesmo. Quem era ele, para prej­u­dicar uma car­reira daque­las? “Tu és uma medalha olímpica. Não posso ser eu a treinar-te. Porque se depois os resul­ta­dos não apare­cerem dizem que a culpa foi do pai”.

Vanessa despediu-se dos pais e par­tiu para a prova. “Que o Espírito santo te ajude a con­seguires o que queres”, disse Her­mí­nia. “Ele vai-me aju­dar”, respon­deu Vanessa, “mas eu tam­bém tenho de querer”. E lá foi, magrinha, os pés a voar sobre o solo num con­tacto suave e elás­tico, cor­cunda em cima da bici­cleta, com o peso de um país inteiro sobre os ombros enro­la­dos para a frente.

“É prata, mas para mim vale ouro”, disse à mãe quando voltou. E à irmã con­fes­sou: “Eu gan­hei esta medalha mas não mere­cia. Havia out­ros que a mere­ciam mais”.

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Depois dos Jogos, Vanessa perdeu com­ple­ta­mente a von­tade de treinar e com­pe­tir. Nunca mais gan­hou nen­huma prova. Nunca mais ter­mi­nou nen­huma, aliás. Con­fes­sou mais tarde que fez treinos de duas horas de bici­cleta a chorar do princí­pio ao fim. Cor­rer, nadar, andar de bici­cleta tornaram-se num sacrifício.

Mas a frus­tração pelos insuces­sos levava-a a querer con­tin­uar. Sér­gio diz que ten­tou convencê-la a não ir a cer­tas provas, mas ela insis­tia. O treinador quis tam­bém que ela com­prasse uma casa em Lis­boa, para sair do CAR, mas isso não foi bem visto pela família.

Em 2009, Vanesa acabou por decidir regres­sar ao Norte. Depediu-se do Cen­tro do Jamor e de Sér­gio San­tos. Voltou a casa, para tra­bal­har com o pai. Vences­lau con­tac­tou Paulo Colaço, pro­fes­sor na Escola Supe­rior de Desporto, de quem tinha boas referências.

“Se um atleta tem como objec­tivo ape­nas ren­der a curto prazo, eu não aceito tra­bal­har com ele”, diz Paulo, que con­dena a filosofia de treino apli­cada pela antiga equipa téc­nica de Vanessa. “Depois dos Jogos, ela devia ter parado. É pre­ciso desen­har cic­los de treino, de 4 anos. Provo­car abaix­a­m­en­tos de forma, proposi­tada­mente. Porque se o abran­da­mento não for provo­cado, ele sur­girá nat­u­ral­mente. Há atle­tas que deix­amos de ver, durante um período”. Regres­sam à forma máx­ima e à rib­alta pouco antes das provas que decidi­ram dis­putar. “Há até mul­heres que deci­dem inter­romper a car­reira desportiva para ter um filho, e depois regressam”.

Além desta abor­dagem, Paulo Colaço atribui ainda grande importân­cia ao fac­tor humano no treino dos atle­tas. Não basta preocupar-se com o treino físico. O treinador deve tam­bém ter sob con­trolo os fac­tores famil­iares, soci­ais e psi­cológi­cos do atleta.

Quando ini­ciou o tra­balho com Vanessa, Paulo desen­hou uma árvore, que vai com­ple­tando, cujos ramos eram as várias ver­tentes do seu prob­lema. Teve reuniões com os pais, com ami­gos. Acha que nen­huma fac­eta da vida de Vanessa lhe deve ser alheia.

O método pare­cia estar a resul­tar. Vanessa ainda obteve um resul­tado sat­is­fatório no campe­onato de Madrid. Mas era uma ilusão. Vanessa começou a fal­tar aos treinos. Inven­tava des­cul­pas. Dizia a Paulo que estava com o pai, e a este que estava com Paulo. Na ver­dade, saía de carro de manhã e vagueava soz­inha até à noite.

Para ten­tar divertir-se, começou a sair à noite, com a irmã. Mas Vânia perce­bia que ela não estava bem. Não tinha ami­gos. Cor­tou com os de Lis­boa, e não voltou a con­tac­tar os anti­gos, de Per­os­inho. “Ela que­ria sair comigo e os meus ami­gos, para dis­farçar o mal-estar. Que­ria distrai-se, mas estava com­ple­ta­mente desorientada”.

Vânia tornou-se sua con­fi­dente. “Não quero mais o desporto”, dizia-lhe Vanessa, a chorar. “Eu já não ando a fazer isto por nada nem por ninguém. Só quero ser uma pes­soa nor­mal, ter um emprego normal”.

As duas, com os ami­gos de Vânia, iam aos bares de Santa Maria da Feira, à dis­coteca 4Ever Club ou ao Biba la Noche. Vanessa exager­ava no álcool. Bebia de forma incon­tro­lada, mas não se diver­tia. Numa dessas noites, con­heceu H. Apaixonou-se e pas­sou a namorar com ele. Nunca mais saiu com a irmã. Pas­sava os dias e as noites com o namorado, numa relação que Vânia e o resto da família con­sid­er­avam obses­siva e pouco saudável.

Vanessa e H. decidi­ram associar-se para com­prar o bar onde ele tra­bal­hava. Depois a relação deteriorou-se e o negó­cio tornou-se um prob­lema para Vences­lau resolver.

No iní­cio deste ano, após reuniões de Paulo Colaço com a família e respon­sáveis da Fed­er­ação de Tri­atlo, Vanessa anun­ciou o afas­ta­mento da vida desportiva. Decidiu tratar o seu prob­lema de saúde e a fed­er­ação apoiou-a. Foi encon­trado um psiquia­tra, depois outro. A insti­tu­ição onde se encon­tra actual­mente é a quinta ten­ta­tiva de solução, segundo José Luís Fer­reira. Reuniu-se uma equipa mul­ti­dis­pli­nar de 20 pes­soas, paga com um fundo do Comité Olímpico. O din­heiro da bolsa que estava afec­tado à preparação de Vanessa para os Jogos Olímpi­cos foi, com o acordo do Secretário de Estado da Juven­tude e Desporto, con­ver­tido num fundo de recu­per­ação da atleta, no valor de 47 391 euros para este ano de 2011.

“O psicól­ogo respon­sável assegurou-me que a doença é genética, e que a Fed­er­ação não tem por­tanto qual­quer respon­s­abil­i­dade”, diz José Luis Fer­reira. “Cul­pa­dos somos todos: ami­gos, família, Fed­er­ação, Comu­ni­cação Social”. Mas “trata-se de o paga­mento de uma dívida. O país deve muito a Vanessa e tem a obri­gação moral de a ajudar.

Vanessa está a treinar para os Jogos Olímpi­cos, mas isso não é condição para que ajuda con­tinue, asse­gura José Luís. “Não será pos­sível recu­perar a atleta sem recu­perar a pes­soa, mas pode-se recu­perar a pes­soa, sem a atleta”.

Neste momento, Vanessa está iso­lada, sub­metida à autori­dade, sem vida própria, depen­dente, a tra­bal­har para mais uma medalha. “Sem­pre foi assim”, lem­bra Maria. “Sem­pre a iso­laram, sem­pre viveu numa bolha. Per­gun­tá­va­mos pela Vanessa e diziam que estava a descansar”.»

FONTE: Público

segunda-feira, 18 de junho de 2012

EURO 2012

Nunca foi tão pouco o meu entusiasmo pela seleção portuguesa de futebol, embora seja obrigado a reconhecer que ontem foi muito competente, perante uma das "Holandas" mais incompetentes dos últimos 20 anos. Contudo os laços afetivos não se rompem.
No entanto, apesar de ontem o povo grego ter contrariado esta citação, «Prefiro os perigos da liberdade ao sossego da servidão», a seguir à portuguesa a seleção grega é a minha favorita. Faço votos para que ambas se encontrem na final.